Flashcards de inglês: o que vale a pena virar card
Inglês não trava por falta de vocabulário. Trava nas escolhas: make ou do, depend on ou depend of, library ou bookstore, put off ou put out. Este guia mostra quais pontos do inglês compensam virar flashcard, como escrever cada card e onde a interferência do português cobra mais caro.
Um verbo em português, vários em inglês
O card "fazer = make" é impossível de acertar, porque fazer também é do. E o problema se repete em quase todo verbo frequente: levar é take, bring, carry ou lead, dependendo da frase; ficar é stay, get, become, keep ou be; conseguir é get, manage ou be able to; dizer é say ou tell; falar é speak, talk, say ou tell; olhar é look, see ou watch. O português junta o que o inglês separa. Com a palavra solta na frente, o card não tem resposta única, então você nunca sabe se acertou.
A saída é pôr a frase na frente e um sentido por card, para a resposta ser única e já vir com a companhia certa: "I need to ___ a decision by Friday" / "make — tomar uma decisão"; "Did you ___ your homework?" / "do"; "It ___ me two hours to get there" / "took — levou"; "Can you ___ me what happened?" / "tell — tell vai direto na pessoa, say não".
No inglês, a direção que decide é português para inglês, porque é ali que a escolha acontece: ler "managed" e entender é fácil, precisar dizer "consegui terminar" e sair com "I managed to finish" é outra história. E, nessa direção, o lado português do card também precisa ser frase inteira. Frente "Consegui terminar o relatório ontem à noite", verso "I managed to finish the report last night". Palavra na frente devolve palavra, e palavra solta é justamente o que não sai na hora de falar.
Se você não sabe por onde começar, comece pelos verbos leves, os que fazem o serviço em quase toda frase: get, take, make, do, have, go, put, come, keep. São poucos, aparecem o tempo todo e são exatamente os que voltam depois nos phrasal verbs e nas colocações. Verbo raro e bonito pode esperar: ele quase sempre precisa de um card só, de inglês para português, para você reconhecer na leitura.
Verbos irregulares: estude por padrão, não em ordem alfabética
Em ordem alfabética, a tabela de irregulares coloca begin ao lado de bend e bite, que não têm nada a ver entre si. Agrupada por padrão de mudança, ela encolhe: i → a → u: sing, sang, sung; drink, drank, drunk; begin, began, begun; swim, swam, swum; ring, rang, rung. i → o → i(+en): drive, drove, driven; write, wrote, written; ride, rode, ridden. vogal → o → o(+en): speak, spoke, spoken; break, broke, broken; steal, stole, stolen; freeze, froze, frozen; choose, chose, chosen. terminando em -ought ou -aught: buy, bring, think, fight e seek fazem bought, brought, thought, fought e sought; teach e catch fazem taught e caught. três formas iguais: cut, put, let, set, hit, shut, cost, hurt. duas formas iguais: send/sent, spend/spent, build/built, keep/kept, sleep/slept, feel/felt, leave/left, lose/lost, mean/meant, meet/met.
Vale uma lista por grupo, com dez ou quinze verbos cada, em vez de uma lista gigante com a tabela inteira. Grupo pequeno você fecha numa sessão, e o padrão fica quase audível: depois de sing, sang, sung, você já quer ring, rang, rung. O modo de repetição inteligente do Memorize serve bem a esse formato fechado, porque a sessão só termina quando você acerta todos e os errados voltam ali mesmo. Dá para encerrar um grupo de padrão de uma vez, em vez de arrastar cinco verbos teimosos por semanas.
A parte que costuma faltar vem depois da forma: os cards de uso, que é onde o particípio realmente aparece. "I have ___ my keys (lose)" / "lost"; "She has never ___ to London (be)" / "been"; "The window was ___ (break)" / "broken". Saber a lista de cor e ainda errar a frase na hora de falar é comum, porque são duas coisas diferentes: uma é a forma, a outra é o encaixe dela no tempo verbal.
Alguns conjuntos precisam da definição na frente, senão você mistura tudo. Lie, lay, lain é deitar-se; lay, laid, laid é colocar; lie, lied, lied é mentir. Rise, rose, risen é subir por conta própria; raise, raised, raised é levantar alguma coisa. Find, found, found é encontrar; found, founded, founded é fundar. Nesses casos o card sai assim: "mentir — passado" / "lied"; "deitar-se — passado" / "lay"; "fundar — passado" / "founded".
Phrasal verbs: organize por partícula e por sentido
Lista de duzentos phrasal verbs não entra na cabeça porque cada partícula muda o verbo por completo: put off é adiar, put out é apagar (fogo), put up with é tolerar, put away é guardar. Por partícula, aparece alguma lógica. Up costuma indicar completar ou intensificar: eat up, use up, finish up. Off, interromper ou separar: call off, put off, take off, cut off. Out puxa para fora, esgota ou revela: find out, run out of, work out, sort out. On é continuar: carry on, go on, hold on. Down é reduzir ou recusar: turn down, calm down, break down. Over reaparece em get over, take over, go over. A lógica não é regra, mas serve de gancho e dá o critério para dividir as listas.
Um sentido por card, com a definição em português na frente: "descobrir uma informação: I need to ___ ___ what time it starts" / "find out"; "cancelar: They ___ ___ the meeting" / "called off"; "tolerar: I can't ___ ___ ___ this noise" / "put up with". Make up, sozinho, rende três cards: inventar ("He made up the whole story"), reconciliar-se ("She made up with her brother") e compensar ("We need to make up for lost time"). Num card só, você lembra de um sentido, esquece dois e não tem como se avaliar.
Quase ninguém faz card de separabilidade, e é aí que a frase sai torta na hora de falar. Turn on é separável: turn on the light, turn the light on, turn it on, mas nunca "turn on it". Look after é inseparável: look after the kids, look after them, nunca "look them after". Com pronome, o separável obriga o meio, e é isso que o card de transformação treina: "Troque por pronome: I'll pick up my sister" / "I'll pick her up"; "Troque por pronome: I'm looking after the kids" / "I'm looking after them". Os de três partes, como put up with, look forward to, run out of, come up with e get along with, são sempre inseparáveis, o que já elimina metade da dúvida.
Falta um tipo de card que ajuda muito na escrita: o par informal e formal. O phrasal verb é a fala do dia a dia, e o equivalente de origem latina costuma ser o registro formal. Put off e postpone, find out e discover, take off e remove, give up e abandon, come up with e devise. O card pode ir nas duas direções, mas a mais útil é frente "postpone (equivalente com phrasal verb)" / verso "put off", porque em e-mail de trabalho e em redação de prova você precisa reconhecer o formal e escolher entre os dois de propósito.
Falsos cognatos: o vocabulário que você nunca duvida
Falso cognato está entre os erros mais persistentes do inglês para quem fala português, por um motivo simples: você não desconfia. Ninguém abre o dicionário para "pretend", porque parece óbvio. É essa confiança que faz o erro sobreviver anos e continuar aparecendo em quem já fala bem. Por isso os falsos cognatos precisam ser cadastrados de propósito, um por um, e no sentido em que o erro acontece: do português para o inglês.
Os pares que mais aparecem: library é biblioteca, livraria é bookstore. Actually é na verdade, atualmente é currently ou nowadays. Pretend é fingir, pretender é intend ou plan. Eventually é finalmente, no fim; eventualmente é occasionally. Realize é perceber, realizar um projeto é carry out. Parents são os pais, parentes são relatives. Push é empurrar, puxar é pull. Costume é fantasia ou traje, costume no sentido de hábito é custom. Fabric é tecido, fábrica é factory. Comprehensive é abrangente, compreensivo é understanding. Sensible é sensato, sensível é sensitive. Support é apoiar ou sustentar, suportar no sentido de tolerar é stand, bear ou put up with. Legend é lenda, legenda é subtitle. Novel é romance, novela é soap opera. Pasta é massa, pasta de arquivos é folder. Tax é imposto, taxa é fee ou rate. Large é grande, largo é wide. Notice é notar ou aviso, notícia é news. College é faculdade, colégio é school. Lunch é almoço, lanche é snack. Exit é saída, êxito é success. Policy é diretriz, polícia é police. Cigar é charuto, cigarro é cigarette. Prejudice é preconceito, prejuízo é loss ou damage. Compromise é acordo ou concessão, compromisso é commitment.
Três formatos funcionam bem, e o ideal é combinar dois deles por palavra. O card na direção do erro: frente "atualmente (EN)" / verso "currently, nowadays — actually significa 'na verdade'". O card de correção de frase, que reproduz o erro real: frente "Corrija: I pretend to travel in July" / verso "I plan to travel in July — pretend é fingir". E o card do sentido verdadeiro em contexto: frente "I ___ to be asleep so he would leave" / verso "pretended — fingi".
Cuidado também com os meio-amigos, que coincidem em parte e divergem no resto: attend é comparecer, inclusive assistir a uma aula, mas atender o telefone é answer. Assist é auxiliar, e assistir a um filme é watch. Assume é supor, e assumir uma responsabilidade é take on. Nesses casos o verso do card precisa dizer o limite, e não só a tradução: "attend — comparecer a algo (attend a class, attend a meeting); atender o telefone é answer".
Colocações e preposições dependentes: o que soa natural
A preposição do português não atravessa, e essa é a família de erro que mais sobrevive em quem já fala bem: depend on, e não "depend of". Married to, e não "married with". Interested in, good at, afraid of, responsible for, worried about, apologize for, congratulations on, look forward to, laugh at, apply for, insist on, consist of, complain about, remind of, prevent from, borrow from, differ from. Arrive in para cidades e países, arrive at para lugares específicos, e "arrive to" não existe.
Tem também o inverso: verbos que em português pedem preposição e em inglês não. Discuss something, e não "discuss about". Enter the room, e não "enter in". Marry someone, answer the question, call your mother, todos sem nada no meio. Já listen, wait, ask e look pedem a delas: listen to, wait for, ask for, look for. Explain e say levam to antes da pessoa (explain it to me, he said nothing to me), tell não (tell me). Aqui o card curto funciona melhor que a frase longa: "depend ___ the weather" / "on"; "married ___" / "to"; "Preposição depois de arrive + cidade" / "in — arrive in São Paulo"; "discuss ___ the problem" / "nada: discuss the problem".
Colocação é o par de palavras que os falantes usam junto sem que nenhuma regra obrigue, e é ela que separa inglês certo de inglês natural. A divisão entre make e do é a mais traiçoeira: make a decision, make a mistake, make progress, make money, make friends, make an effort; mas do homework, do the dishes, do research, do business, do a favor, do exercise. Outros blocos fixos: take a shower, take a break, take notes, take place; have breakfast, have fun, have a look; pay attention; catch a cold; tell the truth; heavy rain, heavy traffic, strong coffee, strong accent. E os decalques do português, que rendem cards de correção de frase: "I have 30 years" é I'm 30; "I have a doubt" é I have a question; "I am agree" é I agree; "It has a lot of people" é There are a lot of people; "work to make" é work to do.
No mesmo espírito, vale uma lista só de padrões verbais. Depois de enjoy, avoid, finish, mind, keep e suggest vem -ing: I suggest going, nunca "suggest to go". Depois de decide, manage, promise, agree, hope e offer vem to. E há pares que mudam de sentido conforme a forma: stop smoking é parar de fumar, stop to smoke é parar para fumar; remember to lock é lembrar de trancar, remember locking é lembrar de ter trancado. Esses pares pedem card com a tradução na frente, porque o que você precisa recuperar é a diferença de sentido, não a forma solta.
Pronúncia e ortografia: o que dá para treinar em card
Card de texto não toca som, então ele não substitui escuta: série, podcast e dicionário com áudio continuam sendo a fonte. O que o card faz bem é fixar regra com exceção e obrigar você a classificar. Comece pelo -ed do passado, que tem três sons e uma regra fechada. É /ɪd/ quando o verbo termina em /t/ ou /d/: wanted, needed, decided, started. É /t/ depois de som surdo: worked, stopped, watched, laughed, missed. É /d/ depois de som sonoro: played, lived, called, opened. Isso cabe direto num card de múltipla escolha: frente "O -ed de 'watched' soa como", alternativas /t/, /d/ e /ɪd/. O mesmo vale para o -s de terceira pessoa e de plural: /ɪz/ depois de sibilante (watches, uses, washes), /s/ depois de surdo (works, stops), /z/ depois de sonoro (plays, runs).
Depois vem a sílaba tônica, que às vezes é a única coisa separando duas palavras. Vários pares deslocam a tônica entre substantivo e verbo: RE-cord e re-CORD, PRE-sent e pre-SENT, IN-crease e in-CREASE, OB-ject e ob-JECT, PRO-ject e pro-JECT, CON-tract e con-TRACT. E famílias de palavras movem a tônica de lugar: PHO-to-graph, pho-TO-gra-pher, pho-to-GRA-phic. Card: frente "record (substantivo): onde cai a tônica?" / verso "RE-cord; no verbo é re-CORD".
As armadilhas da grafia rendem listas curtas e satisfatórias. Letras mudas: know, knife, listen, castle, doubt, receipt, island, half, salmon, hour, honest, comb, Wednesday. A família -ough, que troca de som quase toda vez: though, thought, through, tough, cough, thorough. E as palavras que soam com menos sílabas do que a escrita sugere: comfortable, vegetable, chocolate, business, every. Nessas, deixe no verso a parte que desaparece: "comfortable" na fala corrente está mais perto de COMF-ta-bl do que de com-for-TA-ble.
Por fim os heterônimos, em que só o som separa duas palavras escritas igual. Read no presente rima com "need"; no passado soa como "red". Live como verbo tem i curto (I live here), como adjetivo tem i longo (a live show). Com close e use a diferença está no fim da palavra, e não na vogal: no verbo o s soa /z/ (to close, to use), no adjetivo e no substantivo soa /s/ (close friend, a good use). Card: frente "read no passado rima com qual palavra?" / verso "red". E um critério para essa lista inteira: se você marcou acerto sem conseguir dizer a palavra em voz alta, ainda não acertou. Prenda esses cards à mesma lista do vocabulário em que a palavra apareceu, em vez de criar uma lista de pronúncia à parte que você nunca abre.
Perguntas frequentes
- Por onde começar: verbos irregulares, phrasal verbs ou vocabulário?
- Pelos verbos irregulares, porque são conteúdo fechado e aparecem em qualquer frase no passado. Depois entram as preposições dependentes e as colocações com make e do, que corrigem o inglês que você já fala. Phrasal verbs vêm em seguida, aos poucos, conforme você encontra cada um no que lê e assiste.
- Devo criar card para todo phrasal verb que eu encontro?
- Não. Faça card para o sentido que você encontrou, na frase em que encontrou, e deixe os outros sentidos para quando topar com eles. Put off, put out, put up with e put away são quatro entradas diferentes, e cadastrar as quatro de uma vez só cria cards que você não consegue avaliar.
- Como faço card de pronúncia se o flashcard não tem áudio?
- Transforme pronúncia em classificação e descrição. Cards de som do -ed e do -s funcionam bem em múltipla escolha. Cards de sílaba tônica funcionam como pergunta e resposta ("record substantivo" / "RE-cord"). Cards de heterônimo comparam com uma palavra que você já sabe ("read no passado soa como 'red'"). A escuta em si vem de fora do app.
- Em que direção criar o card de falso cognato?
- Do português para o inglês, porque é nessa direção que o erro acontece. Frente "atualmente", verso "currently", com a nota de que actually significa "na verdade". Some a isso um card de correção de frase, do tipo "Corrija: I pretend to travel in July", que é o formato mais próximo da situação real do erro.
- Meu inglês é intermediário e o vocabulário não sai na conversa. O que virar card?
- Provavelmente não falta vocabulário novo, falta produção. Priorize colocações, preposições dependentes e phrasal verbs do dia a dia, em vez de palavras novas, e escreva a frente em português com a frase inteira. O que trava a fala quase nunca é a palavra que você não sabe: é a combinação certa da palavra que você já sabe.